No que depender do agrônomo Ricardo Garcia da Silva, o Rio São Francisco vai voltar aos seus dias de esplendor e glória ainda neste século XXI. Educador do projeto Viveiros Escola, do Instituto Fábrica de Florestas, em Bom Jesus da Lapa, na Bahia, Ricardo é um vencedor. Apaixonado pelo trabalho, ele é daqueles que transformam os limões ofertados pela vida em deliciosas limonadas. Sente só.

Aos 40 anos de idade, Ricardo define sua infância como “apertada e triste” — mas, ainda assim, consegue falar com carinho dos tempos de menino: “Minha irmã fazia suco de laranja do pé do nosso quintal e chá com ervas medicinais. Aqui todo mundo tem uma horta com ervas medicinais. É preciso passar por certas situações para dar valor às coisas. Às vezes não tínhamos almoço. Então, minha mãe dividia uma bolacha Aymoré conosco. À noite sempre tinha um leite com farinha que formava um mingau. Foi essa infância cheia de necessidades, porém, que me fez ser uma pessoa muito do bem”.

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Não só do bem, como empreendedor e obstinado. Aos 15 anos, Ricardo se muda para Machado, em Minas Gerais, para cursar a Escola Agrícola. E se depara, pela primeira vez, com a diversidade de tipos humanos e perfis de vida completamente diferentes dos que conhecia em Bom Jesus. “A escola foi uma grande lição de vida. Conheci gente mais velha, gente com pensamentos completamente diferentes dos meus”, diz. De lá para cá, o rapaz licenciou-se em Geografia com MBA em Gestão Ambiental, graduou-se em Agronomia e seguiu diversos outros cursos, sempre em busca de aperfeiçoamento em sua área profissional.

Nativo de Bom Jesus da Lapa, onde vive e trabalha, o agrônomo valoriza profundamente a educação. “A educação transforma quando você a relaciona com o seu viver, com a realidade. Se eu der uma árvore ou uma semente para uma criança, ela vai cuidar, pois aprendeu que é importante”, acredita. Ricardo colocou sua expertise à disposição da educação ambiental das crianças de Bom Jesus. “Quando voltei para cá em 2013, já formado em Agronomia, soube que colegas meus viajaram pelo São Francisco para avaliar de que forma fazer um trabalho ligado à educação ambiental”, conta. “O Instituto Fábrica de Florestas criou os Viveiros Escola e eu vim trabalhar com as crianças do município”.

Só no ano passado, 4016 crianças passaram pelo projeto, aprendendo a plantar mudas de árvores e a valorizar a natureza. O futuro do São Francisco depende de uma postura menos extrativista e mais cuidadosa com o bioma. De acordo com Ricardo, não são necessários bilhões de reais para recuperar o rio, como vêm alardeando por aí, embora os dados sejam alarmantes: o Velho Chico já se afastou cerca de um quilômetro de suas margens. “Precisamos, sim, de ribeirinhos com carrinhos de mão retirando areia do rio e plantando árvores. Não precisamos mais de poesia, mas de atitude”, observa o educador.

Junto com o rio vão sumindo as nascentes: “Nascente é um olho d’água de onde brota a vida. É vida que nasce nas profundezas. Em pleno século XXI, ainda encontramos gente carregando latas d’água na cabeça pela caatinga. Há de se ter um olhar crítico sobre isso, não romântico. Nós, ribeirinhos, precisamos encarar a realidade, ou o que parece infinito hoje vai se tornar finito em muito breve”.

*Esta história faz parte de uma série sobre brasileiros que trabalham para preservar o bem mais valioso do planeta, a água. Todos são beneficiados por projetos apoiados pela Coca-Cola Brasil e também aparecem no documentário “Terra molhada”. Clique aqui para conhecer mais histórias.

Texto produzido por Colabora Marcas