“Amanhã se chega em Manaus e não sei que mais coisas bonitas enxergarei por este mundo de águas.”

(Mário de Andrade, em carta a Manuel Bandeira, agosto de 1927)

A bacia hidrográfica do rio Amazonas contém 20% da disponibilidade mundial de água doce. São 133 mil metros cúbicos liberados por segundo. A região tem uma reserva de água subterrânea de mais de 160 trilhões de metros cúbicos. Mas esta realidade de abundância apresenta um sério paradoxo: onde se encontra parte do maior estoque de água doce do planeta, seus cerca de 4 milhões de habitantes têm dificuldade de torná-la potável para o consumo. É a falta de saneamento básico que torna o acesso à água boa para consumo um desafio.

Não é um problema para a criação e a lavoura em áreas de várzea, mas boa parte das populações de comunidades ribeirinhas espalhadas por 1,5 milhão de quilômetros quadrados ainda usa métodos tradicionais — fervê-la para que se possa bebê-la com segurança ou, em menor proporção, a utilização de filtros rústicos. A técnica, porém, nem sempre funciona, ou é praticada.

“As populações ribeirinhas possuem forte relação com os mananciais de água disponíveis e utilizam para consumo a água oriunda de rios, igarapés, fontes ou poços de pequena profundidade, como cacimbas. Apenas um pequeno percentual possui acesso a fontes alternativas, como poços ou água suficientemente tratada. Portanto, estão expostas a maiores contaminações”, relata Valcléia Solidade, gerente do Programa Bolsa Floresta, desenvolvido pela Fundação Amazonas Sustentável (FAS), no qual está inserido um subprograma de apoio à infraestrutura comunitária, realizado em unidades de conservação de uso sustentável do estado do Amazonas.

E quais são as consequências?

Os efeitos dessa situação precária são preocupantes. Apenas de janeiro a abril de 2017, foram registrados 66.789 casos de diarreia aguda no estado do Amazonas, segundo dados da Fundação de Vigilância em Saúde. Destes, 7.082 ocorreram em Manaus. Em 2016, foram 79.708 casos no total no estado. Como muitas comunidades são de difícil  acesso para os agentes de saúde, e por não haver notificação de parte substancial dos casos, números bem maiores devem refletir melhor a realidade.

Nos tempos de cheia dos rios, uma situação crônica se torna aguda. Em maio de 2017, o nível do rio Negro atingiu 28.91 metros. O grande volume de água ocasiona inundações temporárias e a falta de saneamento nos arredores dos centros urbanos criam o ambiente propício para a ocorrência de doenças como a hepatite A, salmonela e dermatoses. Outro fator agravante são os efeitos das mudanças climáticas globais que têm impactado os regimes de cheia e seca dos rios — o que torna os eventos extremos mais correntes na Bacia Amazônica, ampliando ainda mais o problema de acesso a água limpa nas comunidades.

“Trabalhamos em 16 unidades de conservação, ligadas por distâncias enormes, em um quadro de grande complexidade. São aproximadamente 11 milhões de hectares para que possamos executar e influenciar políticas públicas que cheguem às mais de 580 comunidades e localidades onde atuamos”, conta Eduardo Taveira, superintendente técnico-científico da FAS, plataforma importante dentre muitas que buscam equacionar as demandas básicas locais e atuar sobre essas necessidades.

“Como temos uma abordagem holística em nossa atuação, que apoia a conservação ambiental por meio da geração de renda e melhoria da qualidade de vida, é imperativo pensar e abordar os aspectos de infraestrutura comunitária, especialmente a temática de acesso à água e condições de saneamento básico. E isso por dois motivos simples: as políticas públicas não conversam com a realidade da Amazônia, e isso torna cara e complexa a implantação dessas políticas, e a própria extensão geográfica e complexidade logística relacionada com a região, que são únicas no Brasil”, conta ele.

É possível resolver o problema?

As soluções parecem simples e consistem fundamentalmente na construção de redes de distribuição de água interligadas a caixas d’água, a captação de água da chuva e a perfuração de poços. Isoladamente, essas soluções só resolvem a questão da disponibilidade da água, e uns dos desafios enfrentados pela FAS são a identificação, a aplicação, a avaliação e a replicação de tecnologias inovadoras e complementares. Uma dessas tecnologias é o Pró-Chuva, desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa), órgão do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações e que “envolve a captação de água por meio de calhas, seu armazenamento, seguido de tratamento químico ou físico, por decantação e/ou aglutinação”, explica Victor Salviati,, coordenador de projetos especiais da FAS.

Outro exemplo de solução tem sido aplicado e seu uso está sob avaliação em comunidades das Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDSs) Mamirauá, do Rio Negro e Puranga Conquista. Consiste no uso de um modelo de captação de água através de poço artesiano cuja bomba é alimentada por energia solar. A água disponibilizada recebe tratamento com luz ultravioleta, o que neutraliza contaminações microbiológicas.

Se parece tão simples, onde reside a dificuldade?

Em manter essas atividades em caráter sustentável — por meio de educação e capacitação de moradores das comunidades para uma gestão hídrica eficiente. E este não é um desafio solucionado em curto prazo ou sem o engajamento dos atores locais. A capacidade de atendimento às demandas é baixa, geralmente em razão do distanciamento ou da pouca conectividade dos canais institucionalizados.

Por outro lado, sem o protagonismo e a participação efetiva das comunidades, pouco se pode avançar. Na área coberta pela FAS, apenas 15% das pessoas têm água encanada, entre os quais somente 8% têm acesso ao recurso tratado. “Para o enfrentamento desses desafios, a FAS possui um olhar diferenciado e pragmático voltado para a floresta e seus moradores, como partes indivisíveis de uma equação que resulta no desenvolvimento sustentável”, completa Taveira.

Texto produzido por Colabora Marcas