Dois quarteirões antes de chegar ao número 130 da Rua Dr Zuquin, no bairro de Santana, Zona Norte de São Paulo, já avista-se uma imensa garrafa de Coca-Cola na calçada. Dois metros e meio de altura, talvez? O endereço é conhecido por toda a vizinhança, que apelidou o local de “bar da Coca-Cola”.  

Na verdade, o restaurante - único do país reconhecido pela The Coca-Cola Company como temático da marca - tem outro nome oficial, que caiu no esquecimento: Freeport. Mas Homero Rodrigues, o proprietário, gosta dessa troca de identidade. Afinal, ele é um grande colecionador de itens do refrigerante no Brasil. Nos sete ambientes de seu estabelecimento - que atrai, em média, 550 pessoas por dia - há 12 mil objetos relacionados à marca.

Homero lembra como se fosse hoje o primeiro objeto da coleção: “É uma garrafinha de Coca-Cola de boca larga que comprei em uma viagem à Inglaterra, em 1982. Era tão diferente que guardei, mas, naquela época, não imaginava que seria um colecionador”. No ano 2000, ele abriu o restaurante. E antes mesmo de inaugurar o novo negócio, já tinha uma ideia na cabeça: decorar o local com itens relacionados à marca. 

‘Enciclopédia’ da Coca-Cola

O comerciante tem uma memória enciclopédica quando se trata do seu verdadeiro museu. Voz baixa, olhar atento, ele pinça de sua imensa coleção o que acha mais interessante. A primeira garrafinha de Coca-Cola no Brasil, por exemplo. No vidro está a comprovação marcada em relevo: 1942. “As bases militares americanas começaram a trazer a Coca-Cola para o Brasil na Segunda Guerra Mundial. Eu consegui essa aí numa feira de antiguidades do Rio”.

'Bar da Coca-Cola'
Nos sete ambientes do estabelecimento há 12 mil objetos relacionados à marca

Rodrigo Peixoto

Logo na primeira sala do restaurante, estão expostos dois garrafões antigos de vidro para os quais Homero aponta: “Eram os xaropes que enviavam para Manaus a partir da década de 50, onde se fazia a mistura com água e gás”. Ele conseguiu um dos garrafões numa convenção de colecionadores realizada em 2016 nos Estados Unidos. “Já comprei muita coisa em viagens, mas o difícil é trazer, por isso às vezes deixo o abacaxi para outras pessoas”, sorri, apontando para uma garrafa do refrigerante retorcida com líquido azulado dentro. “Essa um amigo trouxe do Paraguai, artesanato de rua”, completa. “Ele teve que trazer no colo para não quebrar”. Haja amigos!

Como já está conhecido entre os especialistas, muitas vezes importadores e donos de antiquários o avisam quando chega um item novo. Seus clientes também o presenteiam quando viajam. Homero mostra um artigo que comprou de um importador: uma enorme lata de um metro de altura. “É uma geladeira que pode ser ligada numa tomada ou num acendedor de cigarro”, diz. “Mas a maioria dos meus objetos é do Brasil. Meu foco é esse. As garrafas de que eu gosto mesmo são as comemorativas e de eventos internos da Coca-Cola porque são mais difíceis de conseguir”, conta. 

Leia também: A paixão que une Coca-Cola, Copa do Mundo da FIFA™ e a história de um colecionador orgulhoso

Uma das salas de seu restaurante é coberta por estantes feitas especialmente para acomodar as garrafas de todas as cores, materiais (vidro, plástico e alumínio) e motivos imagináveis, como as pintadas por Romero Britto ou as que homenageiam Maria Bonita e Lampião, muitas delas com etiquetas indicando o ano de produção, como um bom museu faria.  

Homero tem apreço especial pelos troféus da marca. Um de seus xodós é o que comemora os 100 anos da bebida no Panamá. “Pouquíssimos sabem que o Panamá foi o segundo país, além dos Estados Unidos, a ter a Coca-Cola. Sabe por quê? Por causa do Canal do Panamá”, informa. 

Viagem ao fundo do mar

O Bar da Coca-Cola não deve nada a um museu. Uma vez lá é obrigatório visitar todas as salas com cuidado e atenção para não perder nenhum objeto interessante. E são muitos. Um dos ambientes mais charmosos é a sala náutica, com lemes pendurados e três escotilhas na parede que dão a sensação de que se está dentro de um submarino. Aquários especiais foram instalados atrás da paredes onde estão fixadas as escotilhas. Dentro, garrafas de Coca-Cola, é claro. De uma das escotilhas vê-se três garrafas antigas de vidro, uma com inscrição em chinês, outra em árabe e outra em japonês. A sensação é de que são tesouros no fundo do mar.

Sala náutica
Sala náutica tem lemes pendurados e escotilhas na parede que dão a sensação de que se está dentro de um submarino

Rodrigo Peixoto

Em uma sala bem escondidinha deste museu informal, estão os objetos menores e mais variados: de carteiras, passando por bonecas, bolsas, tênis, lanternas, saleiros, despertador, porta-guardanapos, canetas, caixinhas de música. Imagine qualquer coisa e lá está. “Esse tênis vermelho da Coca-Cola é do carregador da tocha olímpica no Rio de Janeiro. A marca patrocina as Olimpíadas desde 1928”, anuncia. 

Como sabe tanto? “Não faço outra coisa a não ser colecionar e pesquisar”, brinca, ao pousar o olhar para outro achado: uma lata de Coca-Cola que, na verdade, é uma máquina fotográfica comemorativa da Copa do Mundo de 1996. “Muitos desses objetos diferentes são da China vendidos nos Estados Unidos”, afirma. 

Qual foi o item mais difícil de conseguir? “O que eu não tenho”, responde na lata. “Não tem nada fácil. Tudo o que consegui teve um grau de dificuldade”, explica. Ainda há muitos objetos de desejo na sua lista. “Mas posso dizer que faltam poucas garrafas comemorativas para a minha coleção”,  orgulha-se. 

No meio de uma prateleira, ali escondido, uma garrafinha com terra dentro. É um troféu comemorativo de uma das maiores fábricas de Coca-Cola do mundo, diz ele: a terra é do local onde existe a fábrica, na cidade de Itabirito, em Minas Gerais. Outra garrafinha chama a sua atenção: ele pinça da prateleira uma britânica que comemora o casamento do Príncipe Charles com Lady Diana, em 1981.

Veja mais fotos do bar do Homero

Homero caminha pela sala (a única onde não tem mesa e que é fechada a chave por ele) e, de repente, avista uma preciosidade: “Isso aqui é um miniengradado com garrafinhas de 1953. As pessoas trocavam tampinhas marcadas por estes brindes”.  Um porta-chave carrega o lema: “What I want is a Coke”, em português, “O que eu quero é uma Coca-Coca”. 

Em algumas paredes o cliente se vê em forma de garrafa do refrigerante: os espelhos têm esse formato. “Um dos atrativos é o tema do bar, mas claro que o fato de termos bom serviço e qualidade na comida faz com que os fregueses voltem”, diz. 

Melissa Penteado, ao lado da mãe Soeli Penteado, e do filho Vinícios Barros, é uma que vem todos os dias. “Almoço aqui diariamente. Meu marido é louco pela Coca-Cola. E foi por isso que entramos pela primeira vez”, conta. Vem gente de outros bairros. Após o almoço as pessoas fazem um passeio por todos os ambientes e, muitas vezes, deixam uma contribuição para a caixinha de novas aquisições.

‘Não tem nada fácil. Tudo o que consegui teve um grau de dificuldade’ – Homero Rodrigues 

É uma viagem no tempo. Homero mostra a réplica da primeira garrafa de Coca-Cola do mundo, americana, de 1886.  Em uma antiga minigeladeira, a inscrição “Viva o que é bom”.  O objeto mais antigo de sua coleção é uma garrafa pequena de vidro de 1908, americana, que Homero - devidamente vestido com um moletom vermelho da Coca-Cola - segura nas mãos como se fosse uma joia.  

Homero não pensa em parar. “Se precisar, crio mais espaço”, diz, enquanto aponta para um prato onde se lê a inscrição: “Viva o lado Coca-Cola da vida”.

Texto produzido por Colabora Marcas