Doze por cento da água doce do mundo está no Brasil, enquanto milhões de habitantes sofrem com a falta desse recurso por aqui. Mas os problemas e desafios relacionados à segurança hídrica não são exclusivos de um país, nem mesmo de um setor específico da sociedade. Água é questão global, e deve ser debatida por todos. Seguindo essa lógica, o Brasil sediará, de 18 a 23 de março, o maior evento do mundo sobre o tema: o 8º Fórum Mundial de Água. Participantes de mais de 150 países são esperados em Brasília, onde acontecerão mais de 270 debates envolvendo financiamento, governança, gestão, poluição, entre outros temas. “O fórum é para todos os grupos interessados, e buscamos as melhores formas de ter todas essas vozes ouvidas”, diz Karin Krchnak, integrante do Comitê Diretivo Internacional, que conta, nesta entrevista, sobre a expectativa para o primeiro Fórum Mundial realizado no Hemisfério Sul.

Qual é a importância de um evento como o Fórum Mundial da Água?

Um dos principais objetivos do evento é reunir stakeholders para debater problemas, criar propostas, formar parcerias ou estender parcerias já existentes. Há ainda a ideia de compromissos políticos. Temos governo, setor privado, organizações da sociedade civil. Também temos grupos locais, de mulheres, de jovens, estudantes, todos muito envolvidos. Se você olhar para o processo do fórum ao longo dos anos, vai notar a evolução das questões, como Água e Finanças, Água e Clima... O fórum não é a resposta para tudo, mas está contribuindo de forma importante para o debate da água e para soluções ao convocar essa reunião de stakeholders. É uma oportunidade de trazer a discussão para o mais alto nível político.

O primeiro fórum aconteceu no Marrocos. O último fórum aconteceu na Coreia. O próximo, em 2021, será no Senegal. Este ano, no Brasil, o tema geral é “Compartilhando água”. E de fato queremos conversar sobre “compartilhar água”, além das fronteiras políticas, das fronteiras sociais, das fronteiras econômicas.

Q
ual a sua expectativa em relação ao evento no Brasil?

Será importante para destacar o progresso e os compromissos assumidos por governos, setor privado e sociedade civil, para assegurar que estamos efetivamente avançando em direção ao cumprimento dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, em 2030. Além disso, este é o primeiro Fórum Mundial realizado no Hemisfério Sul — é uma chance para os países apresentarem sua “expertise” em gestão de água. Brasil e América Latina compartilham água para impulsionar o desenvolvimento de suas economias, sociedades e meio ambiente, então eu espero ansiosamente ver a liderança da região. É também a primeira vez que o fórum tem um Grupo Focal de Sustentabilidade. Penso que é um grupo chave — em termos da realização do próprio fórum e do diálogo no evento, para garantir que a sustentabilidade seja o cerne das discussões e decisões.

Você poderia explicar um pouco sobre o seu papel no Fórum?

Tenho um duplo papel. Primeiro, participo do Comitê Diretivo Internacional, que é o órgão composto pelo anfitrião e pelo Conselho Mundial da Água (World Water Council). Esse órgão supervisiona todo o processo de desenvolvimento do fórum para garantir um evento bem-sucedido e resultados duradouros. Sou também vice-presidente do Grupo Focal de Sustentabilidade, que é transversal a todos os outros processos do 8º Fórum Mundial da Água. O Grupo procura garantir que as questões de sustentabilidade sejam incorporadas nos processos de outras comissões do fórum, mapeando as oportunidades para desenvolver um evento ainda mais sustentável.

Como estão os preparativos nessa reta final?

Estamos cada vez mais perto e isso é muito emocionante! Nos últimos meses, a estrutura do evento tem sido nosso principal foco, já que as sessões estão sendo formalizadas. É também o estágio final para integração entre as comissões que definem o conteúdo — os processos Temático, Regional e Político, o Fórum Cidadão e o Grupo Focal de Sustentabilidade — para assegurar um forte alinhamento.

À medida que nos aproximamos do fórum, o Processo Político tem atuado na convocação no âmbito do processo ministerial, do subprocesso parlamentar, do subprocesso das autoridades locais e regionais e dos juízes e procuradores. Um subprocesso dedicado aos juízes e procuradores terá lugar pela primeira vez no âmbito do Processo Político durante o 8º Fórum Mundial da Água. Como advogada, estou realmente entusiasmada por ver isso, uma vez que a boa governança da água depende de que esses indivíduos façam parte do diálogo. Este segmento de alto nível incidirá no papel crucial dos juízes e procuradores na aplicação de leis efetivas relacionadas à governança da água, à segurança hídrica, à sustentabilidade ecológica e à proteção do meio ambiente. Esse subprocesso deverá envolver juízes, procuradores, diplomatas, cientistas, professores e outros líderes em um debate sobre desafios atuais e soluções legais inovadoras para problemas envolvendo água e sua adequada utilização.

Vamos falar um pouco da sua história. Como você começou a trabalhar exclusivamente com o tema da água?

Sou advogada ambiental. Minha carreira tem sido em torno do desenvolvimento sustentável, mas comecei a focar em água na Conferência Rio+10, quando percebi que não estava sendo dada atenção suficiente para a questão. A água envolve dinâmicas institucionais e sociais complexas, e acho que precisamos torná-la um tema menos complexo para que todos entendam que, sem esse recurso, não temos nada.

Não faz muito tempo que o tema da água ganhou força globalmente. O que mudou nos últimos anos?

A água sempre foi vista como uma questão local e, portanto, era desafiante chamar a atenção para o tema na escala global. Isso mudou consideravelmente graças à persistência de quem está próximo ao tema e também à globalização.

O Conselho Mundial da Água conseguiu inserir o assunto na agenda política dos países, ajudando-os a reconhecerem que seu crescimento depende de uma melhor gestão hídrica. No desenvolvimento dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), por exemplo, a comunidade de água se uniu para ajudar governos a entenderem que um objetivo dedicado à questão era fundamental para economias, sociedades e meio ambiente saudáveis.

As empresas também estão contribuindo para encontrar soluções para os desafios?

Sim, as empresas estão se dando conta de que estão expostas a consideráveis riscos relacionados à água e que não podem ignorá-los, sejam estes riscos físicos, regulatórios ou reputacionais. Quando eu estive em Nova York durante a adoção dos ODS, muitos governos observaram o importante papel do setor privado no ODS 6 (voltado para o tema de água). Foi incrível. Em tanto tempo trabalhando em diversos processos relacionados à água, eu não havia visto isso. É uma prova de que todos os atores devem trabalhar juntos para garantir a segurança hídrica. Acredito que o engajamento do setor privado está ajudando a mudar o diálogo de onde estava para onde chegamos agora.

Falamos em governo, em setor privado… Mas de que forma a sociedade civil pode participar do fórum?

Há muitas maneiras pelas quais a sociedade civil pode se engajar e até mesmo ajudar a moldar o fórum. O evento pretende que líderes políticos priorizem água, e cada edição abre espaço para diversos atores. Eu também participei dos últimos cinco fóruns como membro da sociedade civil.

Este ano, o governo brasileiro desenvolveu a plataforma interativa Sua Voz. É um espaço online, de consulta aberta, para que pessoas do mundo todo possam colaborar e influenciar. A ideia aqui é engajar também as pessoas que não podem estar presentes no fórum.

Já o Processo Cidadão do fórum tem desenvolvido um extenso programa que inclui, por exemplo, um espaço dedicado às interações sociais com campanhas específicas e ferramentas de informação para o público em geral. Haverá muitos lugares onde as pessoas poderão compartilhar ideias, aprender uns com os outros e colaborar.

Além disso, cada fórum tem um fundo disponível para financiar a participação de organizações menores e que não têm recursos.

Qual conselho você daria para quem quer contribuir para um mundo com segurança hídrica?

Eu insistiria para que as pessoas procurassem aprender mais sobre a origem da sua água e que fossem mais ativas em suas bacias hidrográficas. Que fossem mais uma voz para a sustentabilidade.

Uma mensagem final antes do fórum?

Percorremos um longo caminho para fazer da água algo que deveria ser visto, no mínimo, como uma prioridade. O passo agora é como unimos todos os grupos para atingir os objetivos até 2030. Garantir que a água, até lá, esteja em uma melhor condição do que está agora. Falo condição num sentido bem amplo: a saúde das bacias hidrográficas, gestão e governança, saúde e nutrição, todos os aspectos econômicos envolvidos... Para 2030, espero que a gente possa olhar para trás e dizer: progredimos!

Texto produzido por Colabora Marcas