“Não existe um negócio bom em uma sociedade falida. Os limites do planeta precisam ser respeitados”. O raciocínio sintetizado por Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), vem sendo absorvido por grandes empresas, no Brasil e no mundo. No entanto, de acordo com a economista, ainda há um longo caminho a ser percorrido rumo a empreendimentos cada vez mais parceiros do meio ambiente e da sociedade. Nos últimos meses, inclusive, Marina tem trabalhado engajando parceiros da iniciativa privada para um importante marco nessa agenda: o 8º Fórum Mundial da Água, que será realizado em março do ano que vem, em Brasília. A ideia é que o Fórum tenha pela primeira vez um Grupo Focal de Sustentabilidade, liderado pelo CEBDS e transversal a todos os outros processos do evento.

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“A consciência de que a sociedade e os negócios dependem de uma boa gestão dos recursos hídricos é cada vez maior. A água é um elemento integrado a diversos fatores importantes: segurança hídrica, alimentar, energética. Na crise hídrica no Sudeste do Brasil, por exemplo, o consumidor que imaginava não ser impactado viu o aumento da conta de luz, do preço dos alimentos etc. Todo mundo se prejudica em uma crise como essa, das grandes e pequenas empresas aos consumidores. É um jogo de soma zero”, afirma a economista, que mês passado esteve em Estocolmo, na Suécia, onde participou da Semana Mundial da Água. “Lá, avançamos em importantes parcerias, como a aliança entre CEBDS, Confederação Nacional da Indústria (CNI), Rede Brasil do Pacto Global, World Business Council for Sustainable Development, CEO Water Mandate e Carbon Disclosure Program (CDP), que juntos estão estruturando uma agenda empresarial global para o Fórum”, ela cita.

Uns dos principais elos de discussão do Fórum Mundial da Água são os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), além de metas adicionais relativas à água e ao Acordo Climático de Paris. Entre os objetivos do Grupo Focal de Sustentabilidade, estão a promoção de debates e a proposição de ações para o desenvolvimento de modelos e práticas de gestão mais sustentáveis dos recursos hídricos. Por isso mesmo, uma das iniciativas previstas pela aliança citada por Marina é o Business Day – aberto à participação de representantes políticos e da sociedade civil –, que abordará os principais aspectos da agenda de água para o setor empresarial e será realizado na véspera da abertura oficial do Fórum. "Os resultados desse evento serão levados para um painel de alto nível empresarial dentro do Fórum. Além disso, o CEBDS e os membros da Business Alliance for Water and Climate (BAFWAC) estão trabalhando em uma versão atualizada do Compromisso pela Segurança Hídrica, com ênfase em resultados práticos e monitoráveis relacionados ao cumprimento das metas do ODS 6+ da ONU: Água para todos”.

Os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU

Sustentabilidade é ir além do ‘impacto zero’

Quem não acompanha o tema de perto pode estranhar essa mobilização de grupos empresariais, mas é exatamente esse engajamento que outros setores (governos, ONGs, sociedade civil) esperam hoje da iniciativa privada, explica Marina. Anos atrás, as grandes empresas se limitavam a zerar o impacto ambiental que causavam. Agora, existe a noção de que não basta, por exemplo, reutilizar a água que consomem em seus processos produtivos, se comunidades que compram seus produtos não têm o recurso em casa. “As empresas falavam muito em responsabilidade corporativa, mas não percebiam que a questão econômica está muito ligada ao respeito ao meio ambiente e à construção de uma sociedade mais justa. Esses três pilares, articulados, trazem prosperidade para o negócio. Sustentabilidade é isso: ir além do compliance, ou seja, das regras e responsabilidades básicas de uma empresa. É garantir os recursos da sociedade e ter uma visão de longo prazo”, afirma Marina.

‘Sustentabilidade é isso: ir além do compliance, ou seja, das regras e responsabilidades básicas de uma empresa’ – Marina Grossi


Representante no Brasil da rede do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) e membro de importantes órgãos, como o Conselho Mundial da Água e o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), o CEBDS atua como um radar para empresas, por meio de câmaras temáticas (fóruns) nos temas Água, Biodiversidade, Clima, Comunicação, Finanças, Impacto Social e Logística e Transportes. Em 2014, o Conselho realizou, em parceria com a Accenture, uma pesquisa com executivos sêniores de mais de 15 setores industriais. Dos cem líderes empresariais ouvidos, 99% acreditavam que o tema sustentabilidade era importante ou muito importante para os negócios. O levantamento também apontou que metade das empresas abordadas havia aumentado o volume de recursos dedicados à sustentabilidade, com destaque para investimentos em inovação, orçamento de rotina e equipes próprias dedicadas.

Apesar de enxergar avanços na trajetória de 20 anos do CEBDS, Marina destaca que ainda há muito trabalho a ser feito. Em relação aos recursos hídricos, as médias e pequenas empresas, por exemplo, têm grande dificuldade de mensurar o que gastam e o que reaproveitam. Já as grandes companhias conseguem fazer isso, e costumam ter agendas de mais longo prazo e ser mais bem-sucedidas do que o governo em algumas práticas. Um dos exemplos citados é a evolução do reúso de água, e também a implementação de infraestrutura verde [usar recursos naturais em vez de grandes obras de engenharia]. Mesmo assim, a presidente do CEBDS reforça: “As empresas têm que ser ainda mais ambiciosas quando o assunto é sustentabilidade, ir além de suas fronteiras. O ODS 6+ fala sobre água potável e saneamento básico para todos até 2030. Então existe hoje essa agenda global em curso para governos, empresas e sociedade, no mundo inteiro”. É claro que, segundo Marina, o setor não deve e nem tem como ser protagonista em todos os aspectos, mas tem um grande potencial de inovar, fomentar discussões e gerar elos entre diferentes agentes dessa mudança.