O enfrentamento à crise hídrica colocou o tema em evidência, e o Brasil — dono da maior reserva de água doce do mundo — no centro do debate. Não é à toa que Brasília será a cidade-sede do 8º Fórum Mundial da Água, entre os dias 18 e 23 de março. O tema deste ano será “Compartilhando a água”. Em 21 anos, é a primeira vez que o encontro será realizado no Hemisfério Sul. A expectativa é que pessoas de mais de 150 países circulem pelo Centro de Convenções Ulysses Guimarães e pelo Estádio Nacional Mané Garrincha, onde será montada a Vila Cidadã — um espaço de educação e entretenimento. Estão sendo esperados governantes, acadêmicos, representantes de órgãos de fomento, ONGs e empresas que atuam no setor.

À medida que a oferta de água se torna mais escassa e 261 países dividem bacias hidrográficas, o presidente do Conselho Mundial da Água (WWC, na sigla em inglês), Benedito Braga, defende a necessidade urgente de se discutir, em conjunto, o uso racional dos recursos hídricos. O Brasil, por exemplo, compartilha a Bacia Amazônica e a Bacia do Paraná/Prata com diversos países vizinhos. À frente do fórum mundial, o executivo explica que a principal função do encontro é promover a conscientização de quem efetivamente toma decisões, ou seja, a classe política, sobre a importância do tema.

“A crise da água no mundo não é apenas uma ameaça em si mesma, mas um risco múltiplo, envolvendo saúde, produção de alimentos e geração de energia, o que acaba refletindo diretamente na estabilidade política e social”, analisa Braga, explicando que uma das inovações do fórum mundial foi o foco na sustentabilidade. O fórum mundial está alinhado com as metas das Nações Unidas (ONU) e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para água potável e saneamento, o ODS-6. “Precisamos de soluções que permitam não só encontrar novas fontes de água, como formas de usar de maneira mais racional este recurso”, concluiu.

Braga lembrou que, entre 2014 e 2015, no auge da crise hídrica em São Paulo, ficou claro que um dos maiores aprendizados da seca foi a evidência de que a variabilidade do clima tem afetado a gestão dos recursos hídricos aqui e no mundo. “Em outras palavras, significa proteger a sociedade de perigos associados a enchentes e secas — que deverão se acentuar — e garantir o acesso de todos à água, contribuindo para seu desenvolvimento social e econômico. Mas esse avanço exige infraestrutura e isso só se consegue com investimento de longo prazo”, conclui.

Será a primeira vez também que o empresariado nacional assinará uma carta-compromisso, onde se responsabilizará por uma gestão mais racional dos recursos hídricos. Segundo dados da Organização Mundial das Nações Unidas (FAO), 70% de toda a água consumida no mundo vai para alimentação e agricultura. A atividade industrial vem em segundo lugar, com uma participação de 22%. Segundo Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), empresas como Coca-Cola Brasil, Ambev, Nestlé, Monsanto, Braskem e Neoenergia já se comprometeram a assinar o documento.

O fórum mundial será também o primeiro sem papel. Disponível em português e inglês, um aplicativo poderá ser baixado gratuitamente, em IOS e Android. As contribuições oferecidas por pessoas, especialistas ou não, de várias partes do mundo na plataforma de participação social “Sua voz”, disponível no site do fórum, também poderão ser consultadas pelo aplicativo.

O evento terá 53 estandes, distribuídos em uma área de aproximadamente 9.000 m² — 21% maior do que nas edições anteriores. Portugal, Espanha, Marrocos, México, China, Inglaterra, Israel, Palestina, Suíça, Senegal, Holanda, França, Estados Unidos, Turquia, Coreia e Japão garantiram espaços.

A última edição do fórum, quando o Brasil foi escolhido cidade-sede ao desbancar a Dinamarca, ocorreu em Gyeongju e Daegu (Coreia do Sul), em 2015. As edições anteriores foram em Marrakesh (Marrocos), Haia (Holanda), Kyoto (Japão), Cidade do México (México), Istambul (Turquia) e Marselha (França), onde fica a sede do Conselho Mundial da Água. Além do WWC, o evento é organizado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), representado pela Agência Nacional das Águas (ANA), e pelo governo do Distrito Federal, representado pela Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento do Distrito Federal (Adasa).

Texto produzido por Colabora Marcas