“Aterrissagem autorizada”, informou o piloto, enquanto os passageiros do avião olhavam admirados, lá do alto, a imensidão de uma das maiores bacias de água doce do planeta, no estado do Amazonas. Pode parecer contraditório, mas essa tripulação formada por representantes da iniciativa privada e da sociedade civil estava prestes a vivenciar três dias de discussões sobre segurança hídrica e um cenário desafiador: até 2050, se nada for feito, duas em cada três pessoas sofrerão com falta de água no mundo, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Foi com essa reflexão em mente que todos desembarcaram e seguiram, no mesmo barco, de Manaus até Parintins, durante o Global Water Summit. Emoldurado pela natureza da Amazônia, o evento realizado pela Coca-Cola Brasil — em parceria com o Grupo Focal de Sustentabilidade do 8º Fórum Mundial da Água sob liderança do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) e do World Wide Fund for Nature (WWF Global) — reuniu e inspirou diferentes grupos em torno de uma conclusão: é preciso gerar mais diálogo e transformar aspirações em iniciativas concretas.

Com a palavra, Karin Krchnak, diretora do WWF e membro do Conselho Executivo do Fórum Mundial de Água, que acontecerá em Brasília em março de 2018: “Queremos fazer da água uma alta prioridade, levá-la para um patamar como o das discussões de mudanças climáticas. A mensagem que fica é essa urgência de ação para seguirmos em um caminho prático, em que todos os envolvidos — sejam governos, empresas, ONGs, sociedade civil, indígenas, mulheres... — possam seguir com objetivos convergentes, em prol de todos”.

Focado nessa integração, a ideia do Water Summit é contribuir para a construção da agenda do Fórum. As discussões foram embasadas nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, especialmente o chamado de ODS 6+, que trata especificamente de água e saneamento para todos até 2030. Após intensos dias de conversas e de contato com a biodiversidade e com a cultura local — como o grandioso festival folclórico da cidade de Parintins —, os participantes de diversas entidades brasileiras e internacionais definiram os principais pontos do que chamaram de “Carta de Parintins”. O documento, em processo de elaboração e a ser entregue ao conselho do Fórum, reunirá demandas e sugestões germinadas nos painéis, como a necessidade de um protagonismo coletivo das instituições envolvidas, com um pensamento integrado e intersetorial.

“A Amazônia tem grandes paradoxos: enquanto possui o maior contingente de água doce do país, tem as menores taxas de saneamento básico. É um lugar propício para essa discussão. O Brasil tem muita relevância quando se fala de água. Vamos propor também uma carta de compromissos das empresas para chegarmos a um novo patamar de sustentabilidade”, afirmou a presidente do CEBDS, Marina Grossi.

‘Atingimos a meta da neutralidade em água cinco anos antes do previsto. Estamos convencidos de que é papel das empresas atuar além dos marcos regulatórios e leis’ — Henrique Braun, presidente da Coca-Cola Brasil

Entusiasmado com a participação de todos, o  presidente da Coca-Cola Brasil, Henrique Braun, destacou o papel da companhia, como líder do setor, de ouvir e engajar a indústria e parceiros. “Quando assumimos a meta da neutralidade em água [devolver ao meio ambiente a mesma quantidade de água que é utilizada na produção de bebidas], a atingimos cinco anos antes do previsto. E isso foi fruto de uma discussão com sociedade civil e stakeholders. Estamos convencidos de que é papel das empresas atuar além dos marcos regulatórios e leis”, disse. Hoje, o Sistema Coca-Cola Brasil devolve à natureza o dobro da água que consome em seus processos produtivos. Recentemente, a companhia ainda lançou a plataforma Água + Acesso, que pretende viabilizar o acesso à água potável para comunidades, principalmente do Norte e Nordeste do país. 

Água para as pessoas, para o futuro

Dois painéis delinearam as principais discussões do evento. A cada rodada, importantes questões eram levantadas. Por exemplo: “Como produzir mais com menos recursos?”; “Quais as formas de redução do desperdício?”; “É possível criar uma cultura de gestão da água?”; “Como as mudanças climáticas afetam a segurança hídrica?”; “Como inserir o tema na agenda de governos e iniciativa privada?”.

Perguntas, são muitas. É hora de encontrar respostas.

No painel  “Água para todos – garantindo a segurança e a biodiversidade”, Alan Bojanic, representante da ONU para Alimentação e Agricultura (FAO), fez um alerta sobre o que chamou de “assustadoras estimativas de crescimento populacional”. A ONU aponta que, até 2030, a população mundial chegará a 8,6 bilhões de habitantes. Até 2050, o número pode chegar a 10 bilhões. Nessa busca por alimento e água para todos, a FAO trabalha com duas prioridades: combate ao desperdício e formas sustentáveis de agricultura. “A grande questão é ter mais eficiência dos recursos hídricos. Qualidade da informação, educação e pesquisa científica são essenciais para gerar mudança”, disse.

Telma Rocha, da Fundação Avina, ponderou que essa transformação só será possível por meio de um processo de empoderamento de diversos atores da sociedade. Investir em infraestrutura é fundamental, mas, na visão de Telma, não basta. “Precisamos entender como as pessoas podem participar da gestão e monitoramento da água. O papel dos gestores comunitários é um bom exemplo”, ela comentou, referindo-se às Organizações Comunitárias de Sistemas de Água e Saneamento (OCSAS). Constituídas por cidadãos comuns, sem visar ao lucro, essas instituições estão contribuindo para solução de problemas de segurança hídrica no Brasil e em países vizinhos. “Quem tem acesso hoje não tem garantia que o terá amanhã. É preciso acabar com a cultura da disponibilidade infinita da água”, complementou, lembrando que mesmo grandes cidades como São Paulo, Brasília e Olinda sofrem graves problemas de abastecimento.

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Já Samuel Barreto, do The Nature Conservancy (TNC), atento à questão climática, propôs a construção de uma cúpula no âmbito da ONU para tratar de água. Maior organização ambiental do mundo, o TNC lidera o Coalizão Cidades pela Água, que atua por meio de ações que utilizam a própria natureza para proteger rios e nascentes, e tem objetivo de ampliar a disponibilidade do recurso para mais de 60 milhões de brasileiros em 12 regiões metropolitanas.

 ‘Quem tem acesso hoje não tem garantia que o terá amanhã. É preciso acabar com a cultura da disponibilidade infinita da água’ — Telma Rocha, representante da Fundação Avina 

Inovação para gerar escala

No painel “Água para sempre — construindo o futuro”, Tatiana Fedotova, diretora de água do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), reforçou a necessidade de haver mais investimento em inovação: “É preciso gerar escala para efetivamente resolver o problema”. Para falar desse tema, estava Raphael Pizzi, diretor da startup Agrosmart, que utiliza inovação e tecnologia para ajudar produtores rurais a utilizarem melhores práticas de irrigação, fazendo diferença positiva nas cadeias produtivas do campo.

Hugo Flórez, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), e Perpétuo Cajazeiras, do Banco do Nordeste, apresentaram políticas de investimentos de recursos em projetos de água que fomentam a agenda de segurança hídrica. Na plateia, importantes formadores de opinião como Virgilio Viana (Fundação Amazonas Sustentável) e Mário Mantovani (SOS Mata Atlântica) contribuíram com os debates.

No encerramento, as vozes de três mulheres por ações práticas

No último dia de evento, a atenção de todos se voltou a três mulheres — um cenário significativo, já que, em muitas comunidades, é do sexo feminino o papel de transportar e economizar água, de utilizá-la para lavar e cozinhar, além de cuidar dos familiares vítimas de doenças relacionadas a falta de saneamento. As palavras finais de Marina Grossi, do CEBDS, de Karin Krchnak, do WWF, e de Marussia Whately, da Aliança pela Água, abordaram expectativas, resultados, possíveis impactos, inclusão da sociedade no Fórum, além dos próximos passos. "Precisamos de compromissos vinculantes. Para dialogar, é necessário entender o papel e a capacidade de colaboração de cada um dos setores e instituições”, concluiu Marussia.

O Fórum Mundial da Água ocorre a cada três anos. As edições anteriores aconteceram em Marrakesh, no Marrocos (1997); Haia, Holanda (2000); Quioto, Shiga e Osaka, Japão (2003); Cidade do México, México (2006); Istambul, Turquia (2009); Marselha, França (2012); e Daegu e Gyeongbuk, Coreia do Sul (2015). Para mais informações, acesse o site oficial do evento.

Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico