A terra treme, o coração dispara, os olhos enchem d´água. É assim que amazonenses apaixonados descrevem a sensação de participar do Festival Folclórico de Parintins, evento que todo mês de junho leva cerca de 100 mil visitantes à ilha, localizada a 420 quilômetros de Manaus. Há décadas, a tradicional disputa dos bois-bumbás, o azul Caprichoso contra o vermelho Garantido, resulta num espetáculo conhecido Brasil afora, repleto de cores, música, lendas e figuras mitológicas. Mas a festa tem muitas peculiaridades que pouca gente conhece. Por exemplo: você sabia que a torcida de um boi tem que ficar em silêncio durante a apresentação do outro? Que dá para assistir ao festival pela televisão? E que a Coca-Cola Brasil patrocina essa grande festa há 24 anos? Descubra essas e outras curiosidades sobre o evento, que, este ano, será realizado entre os dias 29 de junho e 1º de julho. Escolha seu boi preferido e divirta-se!

Um pouco de história

— O festival nos moldes atuais, com a disputa num local fechado, aconteceu pela primeira vez em 1965, mas os bois Garantido e Caprichoso existem desde 1913. Não há histórias documentadas sobre a fundação de cada agremiação, e o que se sabe vem principalmente da tradição oral. De qualquer maneira, uma coisa é certa: cada um defende ter sido o primeiro a surgir.

— Como muitos folguedos juninos e festas populares do Brasil, o boi-bumbá tem origem europeia, mas se misturou com tradições de outros povos, como explica a historiadora amazonense Larice Butel. “O nosso boi tem heranças do bumba-meu-boi do Maranhão, que aqui em Parintins se ‘amazonizou’ e recebeu influência de povos indígenas e do imaginário da região”.

— No início, os bois brincavam nos terreiros e saíam às ruas. O formato atual foi criado por um grupo de amigos ligado à Juventude Alegre Católica (JAC) da cidade. Um dos objetivos era arrecadar fundos para a construção de uma catedral. Conta-se também que havia necessidade de organizar a festa para assegurar a ordem nas ruas e evitar brigas entre os mais fanáticos.

— O Garantido é o maior vencedor da festa, com 31 títulos, enquanto o Caprichoso até hoje levou o troféu 22 vezes.

O Bumbódromo

— Desde 1988, o espetáculo acontece no Centro Cultural de Parintins, conhecido como Bumbódromo. Trata-se de uma arena com capacidade para 17 mil pessoas. É lá que os dois grupos centenários de boi-bumbá encenam o “Auto do Boi” (a história central do espetáculo) e também narram lendas locais, com alegorias, coreografias e cantos.

— Cada boi se apresenta nas três noites, por duas horas e meia. Sempre com um espetáculo diferente, apesar de ter que contarem a mesma história. É de tirar o fôlego!

— Cada agremiação tem cerca de 3.500 brincantes, como são chamadas as pessoas que participam da encenação.

— No total, os jurados avaliam 21 itens obrigatórios, marcados pela mistura de elementos folclóricos e indígenas. Entre os itens avaliados, estão as fantasias (que podem chegar a pesar 20 quilos); apresentação dos tuxauas (chefes indígenas); rituais xamânicos; melhor toada; melhor alegoria; melhor coreografia; entre outros.

— As encenações acontecem no ritmo das toadas (músicas compostas para a ocasião), embaladas por cerca de 350 músicos. Figura que não para quieta um segundo é o levantador de toadas, responsável pela animação dos espectadores e dos brincantes.

A galera

— A galera, como é chamada a torcida, é um dos itens julgados pelos jurados. Para participar, é de graça, mas é preciso disposição para encarar a fila. Além disso, os interessados devem saber cantar todas as toadas.

— Nas arquibancadas, cada galera fica de um lado: uma parte do bumbódromo fica azul, e a outra parte, vermelha. Mas há também lugares para quem prefere assistir sem essa "pressão" de ser avaliado. É possível comprar ingressos para outros setores.

— Antes de começar a apresentação de cada boi, um bandeirão gigante de 200 metros da Coca-Cola é estendido em cima da galera. É o sinal claro de que a festa vai começar!

— Durante a festa, um torcedor jamais deve pronunciar o nome do boi concorrente, chamado de “o contrário”. Além disso, são vetados vaias, palmas, gritos ou qualquer outro tipo de manifestação quando o rival se apresenta na arena. A manifestação de uma torcida durante a apresentação do outro boi pode acarretar perda de pontos.

Além da arena

— Dia e noite, as pessoas se divertem nos palcos alternativos onde cantores locais e da capital se revezam em shows. Pode até tocar forró ou funk, mas o ritmo predominante é a toada de boi mesmo! Há também os eventos pré-festival, momento marcado pela presença dos bois em seus currais ou nas ruas. É o famoso “esquenta” da festa.

— O festival é transmitido nacionalmente pela Rede Calderaro de Comunicação em parceria com a TV Cultura de São Paulo.

— O festival Folclórico de Parintins é a mola propulsora da economia local. Movimenta o terceiro setor com serviços, turismo e comércio em geral, principalmente nos três meses que antecedem o evento.

— As demais manifestações culturais que se encontram na Amazônia, como o Festival do Çairé, cirandas e os outros bois, sofreram influências diretas do boi de Parintins — inclusive o carnaval da capital, para onde os artistas de Parintins levaram as técnicas de movimento, aplicadas às alegorias do desfile.

Texto produzido por Colabora Marcas