“A era do imprevisto”. Foi assim que o sociólogo Sérgio Abranches definiu o momento que o mundo atravessa, na abertura da Conferência 360⁰ do Instituto Ethos, realizada no início de junho no Rio de Janeiro. Para ele, este é um período de grande transição que exige ações fortes de todos, particularmente para as empresas, que precisam ir “beyond compliance” (além dos marcos regulatórios e leis) para garantir a sustentabilidade de seu negócio. Por isso, os temas debatidos na conferência — direitos humanos, meio ambiente, ética e integridade — são tão essenciais, em busca de novos patamares para o desenvolvimento sustentável no Brasil.

Na Conferência 360⁰, a Coca-Cola Brasil, patrocinadora do evento, mostrou sua disposição de avançar nessa busca e lançou a plataforma de investimento social Movimento Coletivo, que pretende alavancar, por meio de chamadas públicas, iniciativas de acesso à água, educação nutricional e equidade de gênero e raça. Até o fim de 2017, serão destinados R$ 3 milhões para as ações de impacto social. O primeiro edital vai contemplar soluções inovadoras para o acesso e tratamento de água para consumo, num total de R$ 600 mil.

Mudança de atitude

Ao participar da mesa “As empresas e a adaptação à mudança do clima: inovação nas práticas empresariais”, Flavia Neves, gerente de Sustentabilidade e Valor Compartilhado da Coca-Cola Brasil, usou uma ação da companhia no Espírito Santo como exemplo de solução inovadora para problemas provocados pelas alterações climáticas. “Somos o maior comprador de frutas do país, por causa da cadeia de sucos. No Brasil, 95% do maracujá que utilizamos vinha do Espírito Santo. Esse percentual foi reduzido a apenas 5% por causa da crise hídrica que afeta o estado há três anos. Mas nós não desistimos de comprar lá, estamos trabalhando junto aos agricultores para reverter esse cenário”, ela afirmou.

Por meio de uma parceria com a startup Agrosmart, a Coca-Cola Brasil ajudou a criar um sistema que dá informações diárias sobre a umidade do solo, o que permitiu aos agricultores reduzir em 30% o consumo de água na irrigação das plantações e obter um crescimento de mais de 10% na produtividade, mesmo com a seca. A mudança mostrou que é possível conciliar os interesses do negócio com as demandas da sociedade. “É uma nova forma de conduzir as atividades: queremos compartilhar valor, empoderar toda uma rede no esforço coletivo — o setor privado, governo, cidadãos. Sem água não tem vida, e não tem negócio”, Flavia ressaltou.

Movimento Coletivo para ir além

Agora, com o Movimento Coletivo, a ideia é ampliar o conceito de empoderamento de pessoas e entidades das comunidades com as quais a Coca-Cola Brasil se relaciona. “Pretendemos alavancar iniciativas de diversas áreas de impacto social de uma forma diferente. Em saúde e alimentação, por exemplo, vimos uma oportunidade de direcionar nossos investimentos com mais foco em ações relacionadas à educação nutricional e em colaboração com empreendedores que já atuam na área”, afirma Andrea Mota, diretora de Categorias da Coca-Cola Brasil. Ela participou da mesa “Combate à obesidade infantil: soluções e protagonismos”, na qual destacou que uma das soluções para entender como fazer a diferença no combate a esse problema foram as parcerias, inclusive com quem tinha uma visão discordante.

‘Há desafios enormes. As empresas têm que se juntar, e trabalhar em parceria com o governo e a sociedade civil’ — Pedro Massa, diretor de Sustentabilidade e Valor Compartilhado

A diretora contou que até em Cuba a obesidade infantil é crescente. “É um país onde não tem marketing e os índices de obesidade são parecidos com os do Brasil. Então, entendemos que não se trata de achar um culpado, mas de colaborar para encontrarmos uma solução juntos — empresas, governo e a sociedade civil”. Com as iniciativas “da garrafa para dentro”, a Coca-Cola Brasil buscou reduzir o açúcar nas bebidas, melhorar o nível de processamento, os ingredientes, e ampliar a oferta de portfólio — água, café, chás, refrigerantes, néctares, sucos, lácteos, bebidas esportivas e proteína vegetal, com uma linha de mais de 152 produtos entre sabores regulares e as versões zero ou de baixa caloria. Nos últimos três anos, mais de 40 bebidas já foram modificadas, incluindo as linhas Del Valle Néctar, Del Valle Frut, guaranás regionais e Fanta, que tiveram seu teor de açúcar reduzido.

“Nas ações ‘da garrafa para fora’ investimos em embalagens pequenas, num processo constante de transparência em relação à informação nutricional e em uma política de marketing responsável”, explicou Andrea. Desde 2008, a empresa não faz propaganda em canais com audiência infantil. “O marketing responsável se estendeu voluntariamente às escolas: desde o ano passado, em escolas que têm maioria de crianças até 12 anos, vendemos apenas sucos e águas, numa ação em conjunto com Ambev e PepsiCo”, disse a diretora.

Erradicação do trabalho infantil   

Diretor de Sustentabilidade e Valor Compartilhado, Pedro Massa participou da mesa sobre a "Rede de empresas pela aprendizagem e erradicação do trabalho infantil" — uma parceria do Instituto Ethos com Organização Internacional do Trabalho (OIT) e Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) lançada em dezembro de 2016, que tem empresas como a Coca-Cola Brasil entre as signatárias da Carta Compromisso. Massa destacou a importância de o setor privado unir esforços para acelerar as agendas sociais. Ele contou como a Coca-Cola Brasil usou a Lei da Aprendizagem para criar uma política afirmativa na companhia.

“É preciso visão estratégica. Como disse o Sérgio Abranches, tem que ir beyond compliance. A Lei da Aprendizagem (que determina que as empresas de médio a grande porte devem possuir uma porcentagem equivalente a 5% e 15% de jovens aprendizes em trabalho e/ou estágio) vai além das agendas individuais da Coca-Cola Brasil. Há desafios enormes. As empresas têm que se juntar, e trabalhar em parceria com o governo e a sociedade civil”, afirmou o diretor. Na Coca-Cola Brasil, 100% dos jovens admitidos como aprendizes são negros e 90% deles, mulheres.

Massa dividiu sua apresentação com Crislaine Barbosa, que trabalha na Andina, fabricante do Sistema Coca-Cola Brasil, há cinco anos. Ela entrou como aprendiz por meio do projeto Coletivo Jovem, em Campo Grande, Zona Oeste do Rio. Aos 22 anos, comemora o fato de estar crescendo na empresa. “Eu me sinto prestigiada de estar nesta discussão. O Coletivo me deu um norte, orientação. Me provocavam: o que você quer ser? Ser negra não foi uma barreira. Depois de um ano e nove meses como aprendiz, fiz outros cursos, estágios em outras funções e fui para o RH”, contou Crislaine.  

Equidade racial e de gênero 

Também colaboradora da Coca-Cola Brasil, a trainee Anamarina Abrantes representou a empresa na mesa “Por que uma coalizão pela equidade racial e de gênero?”. Engenheira de produção, ela falou de sua experiência pessoal com o racismo e do quanto foi importante chegar ao processo de seleção da Coca-Cola Brasil. “A  Coca-Cola retirou alguns pré-requisitos elitistas no processo seletivo, como ter vivência no exterior e ser fluente em inglês, para acelerar a entrada de negros e promover a diversidade na empresa. No processo de seleção eu vi muitos candidatos negros, como nunca tinha visto em outros processos dos quais participei. A empresa quer ter dentro de casa a proporcionalidade que existe entre os nossos consumidores”, disse Anamarina, que destacou ainda a importância do Movimento Coletivo para que as pessoas e entidades da sociedade civil possam ter a oportunidade de exercer o protagonismo em questões fundamentais para tornar o Brasil um país mais justo e igualitário.

Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico