Foi durante uma campanha de recuperação do Tietê, o rio icônico da cidade de São Paulo e que atravessa todo o estado, onde nasceu, há mais de 20 anos, um projeto voltado a mobilizar e reunir comunidades em defesa dos corpos hídricos. A experiência foi tão positiva que acabou se espalhando por outros cantos e, hoje, o projeto Observando os Rios, da ONG SOS Mata Atlântica, conta com 3.500 voluntários envolvidos no monitoramento das condições da água em 15 estados. São 237 grupos trabalhando em 288 pontos de rios.


A meta agora é ampliar o programa para mais dois estados, e a nova parceria com a Coca-Cola Brasil, firmada em junho, vai ajudar nesse crescimento, prevê Romilda Roncatti, coordenadora do projeto. Ela ressalta que a participação da empresa também auxiliará no desenvolvimento de um aplicativo para facilitar o lançamento das informações levantadas durante o monitoramento. “Hoje, tudo é feito de forma manual, com o preenchimento de uma folha e o posterior registro das informações em nosso site. Além disso, a parceria possibilitará outras oficinas de capacitação para que os grupos de monitoramento trabalhem com suas comunidades”, destaca Romilda.

O Observando os Rios está em sintonia com as ações da Plataforma Água +, da Coca-Cola Brasil e, portanto, alinhado à intenção da empresa de estar mais próxima das comunidades e de potencializar o ecossistema de acesso à água no país. “Entendemos que o empoderamento das comunidades é fundamental para a transformação dos ecossistemas. Estamos elaborando um planejamento para levar a iniciativa a todos os fabricantes do Sistema Coca-Cola Brasil, desdobrando suas ações nas localidades nas quais atuamos”, explica Laura Peiter, especialista de Valor Compartilhado da Coca-Cola Brasil.


Como é o trabalho?

Cada um dos 237 grupos — formados por, no mínimo, cinco voluntários — se reúne mensalmente em um mesmo local para coletar e analisar a água do rio, usando um kit, fornecido pela ONG. São analisados 14 parâmetros químico-físicos, que incluem níveis de oxigênio, fósforo, PH, odor, aspectos visuais, entre outros. A qualidade das águas pode ser classificada em cinco níveis, conforme a pontuação obtida: péssimo (de 14 a 20 pontos), ruim (de 21 a 26 pontos), regular (de 27 a 35 pontos), bom (de 36 a 40 pontos) e ótimo (acima de 40 pontos).


Apesar de parecer trabalho de especialista, os grupos são abertos a qualquer pessoa, inclusive leigos. Técnico do projeto, o biólogo Tiago Félix da Silva explica que todo o material a ser utilizado pelos voluntários é pedagógico e autoexplicativo.

“As reações químicas que ocorrem durante as análises são fáceis de serem verificadas com a utilização de cartelas que usam cores para orientar a identificação do resultado. Além disso, os participantes são estimulados a perceberem o ambiente de forma mais ampla, identificando os possíveis pontos de contaminação”.


Lembranças daquele rio

E se o filósofo dizia que um homem não pode tomar banho duas vezes no mesmo rio, o projeto quer que, ao menos, ele guarde esse curso d’água na lembrança. Manter vivos na memória da população nascentes, bicas e córregos que fazem parte das histórias de bairros e cidades também é um dos valores do projeto, destaca Malu Ribeiro, especialista em recursos hídricos da SOS Mata Atlântica: “As comunidades eram muito conectadas a essas nascentes e chafarizes. Isso tudo está na nossa memória, seja no nome das cidades, das ruas e dos bairros, mas acabou sendo esquecido por um modelo de urbanização que, muitas vezes, nos isola”, avalia.


Ao procurar os rios escondidos entre ruas, bueiros e bicas, por exemplo, as pessoas se reconectam com essa história e passam a fazer ações locais. “Esse é o grande processo transformador da iniciativa. Queremos mudar uma cultura muito comum: a de que quando um córrego ou rio urbano está poluído, o melhor é canalizá-lo, passando a sensação de que a poluição deixou de existir. Mas é exatamente o oposto. É preciso mudar a condição em que esses rios se encontram. O projeto quer despertar o cidadão, para que ele exija, na forma de políticas públicas, ações efetivas de recuperação desses rios”, afirma.


Virada Sustentável

Uma mostra desta parceria entre a Coca-Cola Brasil e a SOS Atlântica ocorreu, em junho, como uma das atividades do evento Virada Sustentável 2017, no Rio de Janeiro. Uma ação de monitoramento realizada no histórico Rio dos Macacos, que passa pelo Jardim Botânico, classificou como “ruim” a qualidade da água no ponto coletado numa análise preliminar.


Diretora de Conhecimento, Ambiente e Tecnologia do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico, Lídia Vales enfatiza a importância do programa, que terá três pontos de monitoramento dentro do parque. “Consideramos fundamental essa análise periódica do Rio dos Macacos. Teremos a participação de três grupos: da Escola Divina Providência, da nossa equipe interna e do Projeto Educativo do Meio Ambiente, que a cada mês convidará diferentes instituições para participar e assim aumentar a mobilização”.

É possível acompanhar o resultado das análises de todos os rios monitorados no site da SOS Mata Atlântica, pelo link do projeto Observando os Rios. Um compilado dessas informações é divulgado, anualmente, no relatório O Retrato da Qualidade da Água no Brasil. O próximo será lançado no Fórum Mundial da Água, a ser realizado em Brasília, em março de 2018. Quem tiver interesse em participar do projeto ou acompanhar uma ação de monitoramento pode entrar em contato com a equipe do projeto, também, pelo site da organização.