De um lado, um país de rios amazônicos caudalosos, chuvas abundantes e desperdício escancarado. Do outro, regiões propensas à escassez, com chuvas intermitentes e torneiras secas. O Brasil convive cada vez mais com a desigualdade na disponibilidade da água, mas o que era uma sina das regiões semiáridas tornou-se uma realidade também nos centros urbanos ricos: a crise hídrica que atingiu São Paulo em 2014 e a atual seca que acomete o Distrito Federal são exemplos de que o tema da água precisa ser tratado como prioridade em todo o país.

“Não temos uma situação confortável, e precisamos assumir que as crises de água tendem a se intensificar. No Brasil, vivemos ainda com a visão de que o país tem muita água, e isso não é verdadeiro”, diz Marussia Whately, uma das idealizadoras da Aliança pela Água, uma coalização de organizações da sociedade civil criada para propor soluções para a crise hídrica. Mesmo concentrando 12% de toda a água doce do planeta, o Brasil ainda não entendeu que a água e as demandas pelo recurso não estão necessariamente no mesmo território: 70% da água do país está localizada na Amazônia, mas a maior parte da população está nas regiões litorâneas e nas grandes metrópoles do Sudeste e Nordeste. Porém, mais do que uma questão de distribuição geográfica, falta gestão. “O fato é que a gente não vem cuidando bem das nossas águas. Sem uma boa gestão, não vai ter água para todo mundo”, afirma Marussia

Nos últimos cinco anos, diferentes regiões do país começam a ter problemas com a falta de água — especialmente grandes metrópoles, como São Paulo, Rio de Janeiro e as capitais nordestinas. Nos primeiros três meses de 2017, a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) contabilizou 872 cidades com reconhecimento federal de situação de emergência causada por um longo período de estiagem. A região mais afetada é a do Nordeste, e o estado da Paraíba é o que concentra maior número de municípios, com 198 que comunicaram o problema à Sedec. Ainda há uma situação complexa no Distrito Federal — que, por ironia do destino, vai sediar o Fórum Mundial da Água em 2018. São várias regiões do Brasil com problemas relacionados à seca e enfrentando dificuldades econômicas, já que a escassez afeta, além do abastecimento, a produção de alimentos e commodities agrícolas e a indústria. Durante a crise hídrica de 2014, cálculos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) apontaram que a situação causou prejuízos econômicos e colocou sob risco 56 mil indústrias localizadas nas regiões metropolitanas de São Paulo e Campinas

Marussia Whately
Marussia Whately é especialista em recursos hídricos

Foto: Pedro Viana

Esse cenário amedrontador, por outro lado, fez com que mais empresas passassem a utilizar tecnologias de tratamento e reuso da água em suas indústrias. As que já tinham boas políticas de gestão investiram para tornar ainda mais eficiente o consumo nas fábricas. “As empresas, que até algum tempo atrás tinham um papel considerado negativo por causa da poluição e exploração dos recursos hídricos, hoje começam a trazer inovações para reuso de água e combate ao desperdício”, explica Marussia. Segundo ela, empresas que são grandes usuárias de água, caso da Coca-Cola Brasil, hoje estão trazendo mais inovação para o segmento do que o setor público e as empresas de saneamento básico e abastecimento de água.

O desafio para as empresas hoje, mais do que monitorar e ajustar seu consumo de água dentro dos muros das fábricas, é influenciar suas cadeias produtivas para que sejam mais conscientes no uso do recurso. No caso de uma indústria de bebidas, essa cadeia inclui desde o agricultor que produz a fruta para fazer o suco até o fabricante de embalagens PET para o refrigerante — todos consomem água em alguma etapa de seus processos produtivos. “Então será preciso buscar alianças não só com seus pares de setor, mas também com diferentes conjuntos de atores que têm a ver com essa cadeia”, reforça a especialista.

Além disso, a boa gestão dos recursos hídricos no Brasil está diretamente ligada à redução do desmatamento, especialmente das matas ciliares em torno dos mananciais que abastecem as cidades, e da superação das perdas de água na distribuição. Na média, o país perde 37% de água tratada nas tubulações da rede de abastecimento, mas em algumas regiões esse índice chega a alarmantes 70%, segundo dados do Instituto Trata Brasil.

Outro gargalo para a questão hídrica é a pouca cobertura do saneamento básico no país — o esgoto não tratado é um recurso importante desperdiçado e que causa sérios impactos ambientais e à saúde da população. Praticamente todos os rios urbanos do Brasil são poluídos por esgoto, e pior ainda, muitos desses mananciais são usados para abastecimento público. “Conseguimos ainda conviver nas grandes cidades com esgoto a céu aberto, e muitas vezes com esgoto caindo num manancial que vai abastecer a própria cidade, que é o caso da represa de Guarapiranga, em São Paulo, e da Baía de Guanabara, no Rio. Esse é um imaginário que a gente precisa mudar”, observa.