Depois de 17 anos de carreira na Coca-Cola Brasil, com passagens por diferentes áreas, Marina Peixoto assumiu, em agosto de 2020, a diretoria de Inclusão & Diversidade (I&D), nova área criada para ampliar e acelerar a agenda de equidade da companhia. A agenda inclusiva sempre foi importante para Marina, que participa voluntariamente do Comitê de Inclusão e Diversidade desde que ele foi criado, em 2011, mas se tornou um propósito de vida após o nascimento de sua filha, Joana, com Síndrome de Down. Hoje, no novo cargo, ela trabalha lado a lado com os integrantes do Comitê, que se divide em quatro grupos de afinidade – Raça, Mulheres, LGBTQIA+ e PcD – para que a Coca-Cola Brasil seja tão diversa quanto o mercado onde atua. Nesta entrevista, ela fala das metas e desafios da Diretoria de I&D.  

Por que é fundamental para a Coca-Cola Brasil ter uma diretoria voltada para inclusão e diversidade?

MARINA PEIXOTO: I&D faz parte do DNA da empresa, dos nossos valores e do nosso propósito. Sempre acreditamos na diversidade como uma forma de ajudar a mudar a visão de mundo e fazer a diferença. Além disso, é um vetor de crescimento. Dados de pesquisas comprovam que empresas com quadros de funcionários com diversidade tendem a ter maior engajamento e felicidade das equipes, maior propensão à inovação e melhores resultados financeiros. Globalmente temos uma longa história nessa agenda. No Brasil, em 2011, criamos o Comitê de Inclusão e Diversidade formado por diferentes grupos de afinidade. Atualmente, temos os grupos Raça, Mulheres, LGBTQIA+ e PcD. Os integrantes dos grupos são voluntários e dividem seu tempo com suas funções. Além disso, como cada grupo tem sua rotina e especificidades, muitas vezes, perdíamos oportunidade de trazer a lente da interseccionalidade ou de alavancar sinergias e trocar aprendizados. Agora, com a criação de uma diretoria de I&D, teremos uma visão integrada e uma nova velocidade. Os grupos continuarão a existir. A minha função será um pouco de aglutinadora, de potencializar a troca e sinergias entre eles, e também de acelerar essa agenda, uma vez que tenho dedicação exclusiva, visão do todo e acesso à alta liderança. 

Conheça os grupos do Comitê de Inclusão e Diversidade da Coca-Cola Brasil

Comitê de Diversidade da Coca-Cola Brasil
Grupos funcionam como espaço de troca e acolhimento e propõem engajamento, capacitação e ações afirmativas voltadas à diversidade

Arte de Fernando Alvarus

Quais são as principais metas e compromissos da companhia no que se refere a esses objetivos?

Buscamos ser tão diversos quanto o mercado em que atuamos. Desde 2012, tínhamos a meta de atingir 50% de mulheres na liderança e, hoje, tenho orgulho de ver que nossas ações afirmativas foram efetivas e que as mulheres já são maioria no nosso quadro de funcionários (56%) e ocupam 51% dos quadros de liderança. Estamos agora desenhando o plano 2021, e discutindo sobre metas para cada uma das frentes do comitê e trabalhando junto à liderança da empresa para acelerar as mudanças que buscamos. 

Como os temas diversidade e inclusão estão inseridos na sua vida?

Minha filha, Joana, tem Síndrome de Down e, desde que ela nasceu, em 2013, passei a atuar voluntariamente também na agenda de PcD, além da de mulheres em que sempre me engajei. Em 2016, durante os Jogos Paralímpicos no Rio, ajudei a organizar uma série de ações de sensibilização, como palestras com Lais de Souza e Verônica Hipólito, uma miniversão da exposição “Diálogo no Escuro”, que foi feita na matriz da companhia, no bairro de Botafogo, no Rio, e experiências de almoços sobre rodas e com vendas. 

Que marca deseja imprimir ao seu trabalho como líder à frente dessa nova diretoria?

Vejo I&D de forma ampla. As pessoas são múltiplas e, ao mesmo tempo, únicas, não podem ser vistas dentro de caixinhas. Acredito que cada um tem seu valor e pode contribuir para o mundo e para os negócios. Temos quatro frentes afirmativas, mas gostaria de imprimir um pensamento de diversidade com mais interseccionalidades, e que considere também religião, cultura, pensamentos. É sobre respeitar e valorizar o diferente de nós e criar um ambiente onde todos sejam capazes de dizer: “Este é um lugar para as pessoas como eu”.

‘I&D faz parte do DNA da empresa, dos nossos valores e do nosso propósito. Sempre acreditamos na diversidade como uma forma de ajudar a mudar a visão de mundo e fazer a diferença’ – Marina Peixoto 

Em 2017, a companhia foi duramente criticada por uma foto que mostrava funcionários membros do Comitê de Diversidade em uma campanha interna, feita para marcar o Dia do Orgulho LGBT+, com o tema Essa Coca é Fanta. Na época, você era diretora de Comunicação. Pode explicar melhor esse caso? Em que falharam? Quais os avanços ocorridos na companhia desde então? 

Em 2017, aderimos ao Fórum de Empresas e Direitos LGBT+ com os dez compromissos para a promoção dos direitos LGBT. No mesmo ano, fizemos um evento interno com a presença do nosso presidente e alguns convidados e, em junho, no dia do Orgulho LGBT+, decoramos os andares e fizemos uma ação interna elaborada pelo grupo de afinidade que envolvia a distribuição de 100 latinhas com o escrito “Essa Coca é Fanta, e daí?”. A ação foi um sucesso e, a partir das postagens dos próprios funcionários, atingimos mais de 10 milhões de pessoas e cerca de 1 bilhão de impressões. Na semana seguinte fizemos uma matéria no nosso site e colocamos uma foto com algumas pessoas que estavam presentes naquele momento e que haviam ajudado a elaborar a ideia. Era apenas um recorte de parte do Comitê, mas a foto acabou causando essa polêmica por ter apenas homens brancos cis. Aprendemos com as críticas e, hoje, temos um olhar muito mais amplo e interseccional dentro do Comitê. Mexemos nos grupos e hoje temos mais multiplicidade em cada representatividade. No grupo de mulheres, por exemplo, temos mulheres brancas, negras, lésbicas e alguns homens que se interessaram em contribuir com a agenda. No grupo de PcD, temos pessoas de vários gêneros e raças, e pessoas não deficientes. Evoluímos, hoje os comitês têm uma nova lente, mas é uma jornada e sabemos que ainda temos muito o que avançar. 

Como atual diretora de Inclusão e Diversidade o que considera inaceitável dentro da companhia?  

Qualquer tipo de discriminação.  

Como avalia a questão da diversidade e inclusão no Brasil? O que precisa mudar? 

Acredito que como sociedade atingimos uma fase de consciência, a maioria já entende a importância de diversidade e inclusão. O setor privado tem um papel fundamental para esse desenvolvimento inclusivo da sociedade e as empresas já entenderam que I&D também é bom para os negócios. Como o tema é complexo e estrutural, acredito que precisamos de soluções mais colaborativas que envolvam não apenas empresas, mas também órgãos públicos e a sociedade civil. Se unirmos esforços e andarmos juntos, tenho certeza de que conseguiremos mudar o rumo da história.  

Texto produzido por Colabora Marcas