Há 25 anos, um técnico aconselhou Valfredo Luiz, o Neco, a plantar goiaba no terreno que pertence a sua família há mais de cem anos em Tancredo, no município de São Roque do Canaã, no Espírito Santo. Neco, que estava acostumado a cultivar tomate, jiló e café, resolveu seguir o conselho: em 1993 plantou seis mudas de goiabeira. Desde então vem cultivando a fruta, simples assim. “Ele só aconselhou, meu pai e minha mãe me ensinaram a cultivar. Os primeiros anos foram difíceis, eu não sabia lidar com pragas, doenças, essas coisas. Quando comecei a plantar goiaba, os caras daqui riam de mim”, conta Neco, que hoje tem 9.800 pés em 32 hectares.

Aos 50 anos, ele não pensa em parar de trabalhar nem em sair da roça: “Não me adaptei na cidade. Reprovei na escola de propósito para voltar para cá. Tenho apartamento na cidade, fico um dia ou dois e quero voltar. Me sinto à vontade na natureza. Somos cinco irmãos, só um saiu da roça”.

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O grande desafio atualmente é a seca, que já se estende por três anos — e está entrando no quarto ano. “Estamos colhendo quatro meses de goiaba, quando colhíamos o ano inteiro. A seca trouxe desespero para o povo, os bichos estão morrendo... Fizemos um poço artesiano, mas o subsolo é muito seco. Além disso, as nascentes morreram. Precisa voltar a chover para as nascentes voltarem. Chuva não é mau tempo, mau tempo é sol de rachar”, opina.

A seca tem sido tão inclemente que Neco chegou a buscar lugares para cultivar no Espírito Santo e em Minas Gerais. “Mas é difícil sair do lugar onde você nasceu. Na minha idade, então... Para começar do nada precisa largar tudo. E ainda tenho um casal de filhos. Eu ensino o que sei para o meu filho, para o namorado da minha filha, para o meu sobrinho. Trabalhamos unidos para ter continuidade”, diz.

De uns tempos para cá, Neco vem trabalhando com a startup Agrosmart, que tem um projeto em conjunto com a Coca-Cola Brasil para ajudar na economia de água. A técnica desenvolvida pela empresa se vale de sensores que permitem avaliar as condições ambientais para irrigar estritamente o necessário. A economia pode chegar a 60%. “Eu já vinha controlando com um aparelho manual. Há um anos eles trouxeram um método bem melhor. Infelizmente, ainda não tenho como falar muito a respeito por conta da seca. Mas quero economizar uns 30% do que eu vinha gastando de água”, afirma Neco, que acredita que a tecnologia vai abrir os olhos dos produtores que usam água em excesso em suas lavouras.

O agricultor é otimista em relação à educação ambiental em sua comunidade: “Muita gente que achava que tinha que derrubar a mata, fazer estrada sem caixa seca para segurar as enxurradas, já está percebendo que errou. A natureza cobra seu preço. Agora o pessoal está preservando mais, deixando capoeira em pé de morro. A natureza foi ensinando, e eles estão aprendendo”.

Enquanto torce para a seca acabar, Neco fica com a lembrança da chuva, uma das coisas de que mais gosta na vida —uma paixão que o acompanha desde a infância. “Quando era criança, eu corria no meio da chuva, nas valas cheias d’água, sentindo o cheiro da terra molhada. É um perfume que me atraía e atrai até hoje. O cheiro da chuva é o cheiro da terra molhada”, conclui.

*Esta história faz parte de uma série sobre brasileiros que trabalham para preservar o bem mais valioso do planeta, a água. Todos são beneficiados por projetos apoiados pela Coca-Cola Brasil e também aparecem no documentário “Terra molhada”. Clique aqui para conhecer mais histórias.

Texto produzido por Colabora Marcas