Os 17 anos de Beatriz Carmona expressam-se na voz adolescente — mas o conteúdo da fala transborda maturidade. Mais cedo do que a maioria, ela descobriu a urgência de conseguir um trabalho. Mas sem qualquer experiência e em um mercado concorrido, não avistava horizontes animadores.

Capítulo 1: O sonho

O cenário da vaga sonhada era desalentador: nada menos do que 370 candidatos a um lugar na Reachlocal Brasil, empresa de marketing digital de Barueri, cidade na região metropolitana de São Paulo, onde vive. A jovem tinha para mostrar, além da vontade, uma pequena passagem como estagiária num restaurante, abreviada porque ficara doente.

Capítulo 2: O obstáculo

Assim, superar a pequena multidão (que ainda cresceria, pelo cadastramento feito através de rede social) na luta pelo lugar desejado parecia impossível. E olha que necessidade não falta. A adolescente mora com os dois irmãos na casa da avó, que sustenta todo mundo com sua pensão de dois salários-mínimos. Aluna do último ano do Ensino Médio na Escola Estadual Ivani Maria Paes, também em Barueri, Beatriz sabe que precisa ter pressa. “Agora, tenho de ajudar minha avó e, no futuro, quero ser independente”, planeja.

Capítulo 3: A ideia

Diante de tantas demandas urgentes, optou pelo caminho mais compensador, para vencer desafios grandes, médios ou pequenos: a criatividade. “Entendi que meu currículo precisava se destacar naquele monte de candidatos. Pensei em utilizar a marca mais conhecida do mundo para chamar a atenção”, explica ela. Sem comentar com ninguém (“Não se deve compartilhar os planos, pensamentos alheios atrapalham”, ensina), Beatriz apanhou uma imagem do rótulo da garrafa PET de 2,5 litros de Coca-Cola sabor original na internet e foi incluindo suas informações.

Capítulo 4: A execução

Seis horas de trabalho depois, a estudante levou a peça para ser impressa. Já na loja, as pessoas olharam surpresas, referendando que a ideia cumpria seu papel de atrair a atenção. Mas ali estava apenas metade da história. Beatriz queria colar o currículo-rótulo numa garrafa original da bebida, para arrematar o projeto “destacar-se na multidão”.

Única pessoa a saber da cruzada, a avó contribuiu com a PET de 2,5 litros, e Beatriz imprimiu um segundo rótulo como garantia. Colou o primeiro na garrafa, mas à noite, o irmão mais novo (“Ele é muito sem-noção”) abriu para tomar um pouco do refrigerante. No dia seguinte, a jovem fez tudo outra vez com a cópia e levou até a empresa, pessoalmente — porque projetos importantes devem receber carinho e cuidado.

Capítulo 5: o truque de mestre

Mas ainda havia um obstáculo a superar: como fazer o currículo chegar a Flavio Pelizari, o diretor de Recursos Humanos da Reachlocal, responsável pela contratação? Beatriz conseguiu entregar à secretária, que avisou o chefe, mas não foi suficiente — e a garrafa acabou na geladeira da empresa, como convém aos refrigerantes.

Ela desconfiou que precisaria de mais um empurrão, que veio das redes sociais. No dia seguinte, um sábado, postou imagens do rótulo e da garrafa PET no Facebook e marcou Pelizari. A história “bombou” na rede — e o diretor mandou uma “inbox” para Beatriz, combinando um encontro na segunda-feira seguinte.

Epílogo: A vitória

“Nem acreditei quando vi a entrevista marcada”, exulta a estudante, lembrando do espanto do diretor: “‘Tem gente aqui que trabalha há 20 anos e nunca apresentou uma ideia dessas’, ele comentou comigo”. E o destino está aí mesmo para ajudar quem merece: o homem ADORA Coca-Cola. “Chegou na pessoa certa”, comemora ela, que entende a preferência como um incentivo. “Posso me deparar com um desafio semelhante na minha carreira”, aponta.

Agora jovem aprendiz da Reachlocal, que presta serviços à Femsa, fabricante do Sistema Coca-Cola Brasil, Beatriz está nas nuvens. Começou dia 10 de julho e rapidamente flagrou-se apaixonada pela rotina profissional. “A empresa incentiva o trabalho com liberdade, do meu jeito, num ambiente flexível, que valoriza a diferença”, elogia. “Sabe amor à primeira vista? Foi o que senti. Tinha mesmo de trabalhar lá. Estou muito feliz. Meu horário é flexível, desde que cumpra a jornada de seis horas diárias, de segunda a sexta”, relata.

Cenas dos próximos capítulos: O futuro

Craque no violão e no teclado, fascinada por fotografia e desenho — “Mas sem tempo para namorado agora” —, Beatriz adora inovar, fazer diferente. Para provar aos céticos, montou e guardou em casa uma outra garrafa de Coca-Cola com o rótulo-currículo, eternizando sua chegada à profissão que pretende seguir. E porque troféus de conquistas importantes devem ser preservados.

Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico